18.2.13

Veganos

Resolvemos ser veganos durante a quaresma.
Bom, tirando a manteiga, o paté e os queijos que ainda estao no frigorífico e que têm que ser comidos, até agora tudo bem. A regra é nao comprar mais produtos nao-veganos. Fui ler uns sites veganos e os próprios profissionais dizem que ser vegano é uma utopia.
Parece-me que nao estamos a levar a coisa muito a sério.

12.12.12

Um gato

quando está satisfeito e relaxado, o meu filho poe-se a ronronar...

20.11.12

Depois, aparece um dente, que provavelmente explica quase tudo.

De repente, uma semana difícil. Irritado, impaciente, sem querer comer mas a comer quando o puré lhe aparece na boca, sem saber o que quer, a chorar sem parar antes de dormir e ainda mais quando vamos ao quarto pôr a chucha e nos vê, e ainda mais quando o deito depois de se ter acalmado ao colo. Penso que o desmame lhe custa, e talvez me custe a mim também. Às vezes já nem sei se certas coisas partem de mim ou dele. Difícil, o mais difícil desde que nasceu. Não sabemos muito bem o que se passa nem o que fazer.

15.11.12

Na sala

pai, fome, biberon, choro, chucha, biberon, cantigas, choro, silêncio, choro, chucha, biberon, silêncio.

Paciência e determinação. E um pai contente por ter amamentado.

7.9.12

Amoras

A velha da praça, dia-sim, dia-não, ralha comigo, que se não lhe compro as amoras, que nunca mais vai apanhá-las, e que estão a ficar secas com este calor, e que tanto trabalho lhe deram a apanhar, e que ninguém as quer. Depois da afronta de mais um dia sem comprar amoras, o mínimo é sair de lá com um quilo em vez de meio de figos.

21.7.12

Pieguice N° 2

Está a rir-se para nós.
E é assim que, durante o pequeno almoço numa manhã - ainda por cima chuvosa - de sábado, um pai e uma mãe engripados, relativamente mal dormidos e um bocado mal dispostos se esquecem disso tudo.

19.7.12

Pieguice n° 1

separei-me pela primeira vez do Nuninho quando fomos visitar amigos que vivem do outro lado da cidade, o Christian mandou-me ir de bicicleta para apanhar ar fresco um bocadinho on-my-own e os dois - pai e filho - foram de carro. Pelo caminho ía a pensar no que me aconteceu desde que ele nasceu; parece que desde aí nunca mais tive tempo para pensar. E depois eles passaram por mim no carro, dissémos adeus, e eu a vê-los desaparecer na curva e a pensar: "nao lhes pode acontecer nada".

31.5.12

The Baboon Show



Muito sexy, muito punk, e eu num concerto sentada em cima de uma mesa a agitar os braços e a cabeça e a pensar "ó filho, nao tenhas medo, que isto é bom!". Mesmo à frente do palco, um par com ar hard-core, roupa preta rasgada, abanavam as cabeças meias rapadas de maos dadas.

29.5.12

Uma artista muito cool! Vejam.

26.5.12

Hahn e Hauschka



Lindo. Uma crianca prodígio do violino e um pianista experimental. Gravaram um album na Islândia. E eu, sem nunca ter ido à Islândia, acho que isso nao é um pormenor. A vantagem de ter televisao é descobrir estas coisas que andam no limbo.

"à direita!... vai ao centro!"



O Chris achou que era uma paródia, por estarem todos com caras tao sérias a seguir as ordens de quem manda. Para ter prazer a dancar nao é preciso rir. Além disso, para que a roda funcione é preciso que todos saibam. Nas festas de Ponte de Lima eles diziam-nos: "Nao aguenta sai pró lado!" Que pena nao termos visto a Chamarrita do Pico.

21.5.12

Vou ser madrinha de casamento!
Que felicidade!
Queres mesmo esperar mais 3 semanas?

17.5.12

Cómoda

A cómoda que herdámos era de refugiados da guerra que viveram em casa da família do Chris. Vinham de Munique e foram distribuidos pelas aldeias. A seguir à guerra perderam-lhes o rasto e aos descendentes que nunca vieram buscar a cómoda. Eles chamam-lhe mesa de lavagens porque tem um tampo de mármore e um espelho. Em cima do tampo de mármore usava-se um alguidar e um grande jarro de loica para as laviscagens matinais. Areei-lhe os puxadores e passei produto de madeira, encerei as gavetas e já correm um bocado melhor. Às vezes penso se nao teria pertencido a judeus.

Dia da espiga

Há anos, ía com o pai à baixa e apanhávamos a espiga. Nesta altura o calor ainda nao era muito e o pai explicava-me a espiga enquanto subíamos para casa. Nessa altura o pai dizia-me que Monchite era o melhor sítio do mundo e aquilo parecia-me um bocado exagerado porque Monchite era um sítio normal.

Este ano, o Steffen está de braco ao peito e por isso escolhemos um programinha bom para ele e para uma grávida no nono mês (!!!) e vamos ao ocupar Frankfurt.
Chris: "vês na internet qual é o programa?"
Eu: "ah, ontem houve uma rave, hoje nao deve acontecer nada antes da tarde"

Monchite era o melhor sítio do mundo, e o melhor de tudo é que o pai sabia disso. E mo disse!

4.5.12

34 semanas

Redondos ainda mais redondos. Fotografias de há uns meses em que achava que estava redonda - ingénua. Nao tinha o cabelo tao bom desde que tomei o ruacutan, sardas, sinais, os pêlos das pernas muito fracos. Pesada, nos pés e nas pernas. Que saudades de dormir de barriga para baixo. À noite viro-me para um lado e para o outro, braço de baixo dormente. De manhä acordo como uma baleia que deu à praia - esta expressao nao é minha. Admiramo-nos com a barriga que mexe sozinha, nao devíamos ter visto aquele filme do alien.

9.4.12

Mangas alemas

No supermercado turco compra-se bom peixe e boa carne, e todo o tipo de feijao, grao, lentilhas, guloseimas em embalagens de cores muito garridas e que nao se percebe o que é, iogurte e arroz aos 5 quilos. E o senhor Avasin nao se deixa intimidar, na dúvida declara fruta e legumes como de origem alema. Meloes, melancias, mangas e todo o tipo de frutas do calor. As vezes que nao compro por virem do outro lado do mundo. Mas agora que sei, vou passar a ir ao senhor Avasin comprar mangas alemas.

23.3.12

Restos do casamento

Desencaixoto e encontro coisas tao bonitas. E mensagens ainda melhores. Sim, vamos continuar a ser muito felizes!

20.3.12

Planos para a licença

Vou de licença 6 semanas antes do dia previsto para o parto.
Plano 1: Pastéis de massa tenra - nunca fiz, preciso da receita.

19.3.12

O consumismo como acto patriótico

O meu sogro diz que com a nossa mania das coisas em segunda-mao damos cabo da economia.

Roupas pequeninas

Já há uma cómoda lavada, oleada, arejada, forrada com papel aos quadradinhos. Nessa cómoda só entram coisas pequeninas que foram passadas em muitas águas. Algumas delas até foram passadas a ferro. Rimo-nos com algumas roupas. Comentamos que uma máquina cheia de coisas pequeninas demora muito mais tempo a estender. Tem mantinhas que já há 50 anos aqueceram as tias. E cueiros, que a avó daqui nao conhecia. E do pai tem babygrows em cores fortes, anos 70 alemaes. Continuamos a entrançar as palhinhas, enquanto ele dá muitas cambalhotas na barriga de contente.

9.3.12

Palhas para o ninho

Ontem fomos ao Ikea e trouxémos palhas para o ninho.
Hoje chegam as palhas que mandámos vir de Portugal, palhas com qualidade do sul.

15.2.12

Chegádos.

Crise ou nao, a pujanca da oferta de alimentícios no hipermercado impressiona-me mais uma vez. O que faz o feira nova aos cantos do pao do qual vende só os meios? O assador de castanhas do vizinho que tem uma garagem por baixo do prédio já nao é empurrado por uma motoreta, agora é puxado às três pancadas, assadores em equilíbrio na curva, como atrelado de uma carrinha. Tive a sensacao que já nao é o velho assador, mas que talvez o filho lhe tenha herdado a banca mas nao a delicadeza. Ir à depilacao é luxo. E transportar livros já lidos, só os favoritos, para a Alemanha só pelo prazer de os ter por perto é o cúmulo do luxo. Da janela já nao se vêem terrenos baldios que nao estejam transformados em hortas. E estamos os dois em choque de sol e de citrínos.

9.2.12

estou feita

diz que com a azia que tenho, vem cheio de cabelo.
vou reduzir o café, pode ser que ajude.

7.2.12

Nao sei se desculpo

Uma delícia as mensagens que troco com a minha gestora de conta da CGD:

Eu: segunda-feira, 6 de Fevereiro de 2012 19:00
Ola Sr.a D.a Xxxx,
peco que me informe sobre (...)
Obrigada e cumprimentos,

Ela: terça-feira, 07 de Fevereiro de 2012 11:24h
Bom dia, Dra.
Espero que esteja tudo bem consigo.
(...)
Caso necessite de algum esclarecimento adicional, não hesite em contactar-me.
Obrigada
Com so melhores cumprimentos

Eu: terça-feira, 7 de Fevereiro de 2012 11:32
Cara Sr D Xxxx,
obrigada.
(...)
Cumprimentos,

Ela: terça-feira, 7 de Fevereiro de 2012 13:28
Boa tarde, Sra. Eng.
Antes demais desculpe, porque há pouco troquei-lhe o título honorifico.
(...)
Com os melhores cumprimentos,

Ora, nao sei se desculpo o facto de a minha gestora de conta nao estar informada sobre os meus títulos honoríficos, como ela tao poeticamente lhes chama. Portugal no seu melhor. Depois de uma vez ter telefonado para a seguranca social em Tomar e me terem dito "ahhhh mas está tao longe e eu oico-a tao bem!", esta está em segundo lugar.

4.2.12

Casa

Para trás ficam as riscas como em Sao Martinho. Mas a casa nova tem sol sol sol. Mal posso esperar para comecar a fazer o ninho. Hoje vieram os amigos que sao como família. Carregaram caixotes, móveis, máquinas para baixo. Tudo em carrinhas que eles trouxeram para nos ajudar. E na casa nova tudo para cima, está tudo amontoado num dos quartos que já pudémos ocupar apesar de só termos a casa a partir de Marco. Andámos a ver a casa mais uma vez, a medir, a planear móveis e pinturas. Depois voltámos à casa velha vazia e almocamos todos duas pizzas gigantes, cerveja e coca-cola sentados no chao. E aqui ficamos mais uma semana e meia. Só com o essencial, o que mais uma vez mostra que o essencial é muito pouco.

30.1.12

Sem-abrigo

http://fortschrittweise.wordpress.com/
„Ich kann freilich nicht sagen, ob es besser werden wird, wenn es anders wird; aber so viel kann ich sagen, es muss anders werden, wenn es gut werden soll.“
Georg Christoph Lichtenberg

Traducao livre: "Nao sei ainda se a mudanca será para melhor, mas uma coisa sei: para melhorar, tem que ser diferente."

Eva, 28 anos, relacoes públicas. Demitiu-se, rescindiu o contrato da casa, ensacou os poucos pertences em sacos do lixo que despejou em casa dos pais na Polónia, e partiu com uma mochila às costas. Desempregada e sem-abrigo, como ela diz. Nao é uma história original, mas é-me próxima. E fico muito contente por ela.

Vivam a vida como querem e deixem-se de tretas, a liberdade para isso é de quem pega nela.

13.1.12

Nabucco

De ficar de boca aberta sem pestanejar. Lindo! Lindo! Lindo!

Que bom é ir ver o mar!

Saímos às 4 da manha, tomámos o pequeno almoco na Bélgica, em Bruxelas fomos ao museu do Jacques Brel, em Lille dormimos a primeira noite, em Calais uma ventania, em Boulogne-sur-Mer as marés enormes e cheiro a porto, na baía de-la-Somme vimos focas (!!), em Tréport comemos peixe e dormimos com vista para o mar e em Reims passámos o ano na rua a observar adolescentes de província.

Benditas hormonas

Ando cansada, sonolenta, pouco resistente, esfomeada e distraída, mas nao há nada que me chateie nesta vida.

Armário

A crianca já tem um armário em madeira que dá até sair do ninho. Recolhemos da rua, em frente à universidade, e tem um autocolante a dizer "Institut für Angewandte Physik"*. Ele diz que precisa de verificar se os níveis de radioactividade estao conforme para ficar descansado. Eu já ando a pensar se o pinto ou nao.

*Instituto de Física Aplicada

Aulas de português

Disparates que se aprendem na aula de português em Darmstadt:
- em Portugal tratam-se as pessoas por Dona e primeiro nome quando se tem alguma intimidade mas se continua a usar o tratamento formal,
- em Portugal nao existem mais palavras para descrever actividades que se fazem na cozinha além de cozinhar (estou a lembrar-me de cozer, fritar, assar, guisar, etc),
- em Portugal nao se fazem bolos, só se compram feitos (esta é a mais engracada de todas).

Apesar disto tudo, noto progressos! O que demonstra mais uma vez que nao há nada como duvidar da competência de uma professora para aprender o que quer que seja. Para ele, tudo o que é dito na aula precisa primeiro da minha aprovacao para depois ser aprendido. O resultado é discutirmos as aulas de português em casa ao mesmo tempo que falamos dos usos e costumes. A pronúncia é um doce.

2.1.12

arte lacticínea francesa

leite condensado e iogurtes líquidos

20.12.11

Quatro assoalhadas II

Diz que a máquina da loica cabe sim senhor, diz que se resolve tirando o lava-loica antigo para a cave, e se a senhoria tiver muita estima nele, volta-se a pendurar depois. Diz que os pombos também se resolvem, mas disso eu nao tinha dúvidas, é só uma questao de persistência. E a senhoria parece que gostou de saber dos nossos empregos e dos nossos títulos académicos (os alemaes sao loucos por eles, até poem nas campaínhas das portas). Escrevemos um mail muito polido, muito pretensioso, a gabar-nos dos nossos trabalhos, com os títulos no fim, e tudo, e tudo. Um bocadinho prostituicao, sim, mas que é que me rala, dou-lhe a cantiga que ela quiser ouvir. É saber-viver.

Neve

A árvore enorme em frente à nossa janela, mais alta que as nossas águas furtadas, estava toda branca quando acordámos. Lindo. Vamos ter saudades da árvore.

18.12.11

Quatro assoalhadas

O que poderia ser a nossa casa nova sao 4 assoalhadas (já nao devia usar esta palavra há mais de 10 anos), chao em tábuas largas de madeira, tectos altos, janelas grandes e portas antigas. A escada do prédio é a mais bonita que já vi em Darmstadt, quase tao bonita como a da Rodrigo da Fonseca (só quase). Dois pormenores com interesse turístico, a retrete alemä e um duche franquefurtense. A primeira é uma retrete desenhada de maneira que tem uma plataforma quase horizontal onde cai o cócó antes de ser empurrado para baixo pela descarga do autoclismo. Nao sou fä, apesar da vantagem de facilitar uma observacao do dito, em jeito de controlo de qualidade e despiste de distúrbios digestivo-intestinais, e de - mais interessante - evitar o odioso respingo.O duche franquefurtense nao tem em si nada de tao especial como esta retrete, aparte o detalhe de se situar na cozinha. É normalmente num canto recatado - valha-nos isso - e pode ter ou nao porta (este nao tinha). Pior e mais sério que estes dois detalhes curiosos é nao haver na cozinha espaco para a nossa máquina da loica. Ah isso, venham-me com os chaos em madeira e os tectos altos que quiserem, até me podem mostrar um lava-loicas antigo que seria uma pena deitar fora que eu nao me compadeco. Esta vai ser a nossa condicao, ou entramos com a máquina-da-loica, ou nao entramos de todo. E até estaria disposta a esquecer ou a adiar outros dois problemas: os pombos que vivem por cima da entrada da porta do prédio, nada de mais nojento - e se um dia me cagam em cima? - e o vizinho que vive no rés-do-chao e diz que o páteo é só dele, embora a actual inquilina duvide que esteja assim estipulado. Um páteo tao simpático com uma grande mesa, já estou a ver os grelhados que se podem fazer ali. E os pombos nem pensar, nao descansaria enquanto nao os espantasse dali a bem ou a mal.

15.12.11

Redondos

Estou a ler "O filho de mil homens" de Valter Hugo Mae e, eu que que normalmente gosto da exuberância dos detalhes e de descricoes exaustivas de sentimentos e momentos, estou presa na falta de detalhes excessivos, na reducao ao essencial, na pureza. Lindo!

Tenho cada vez mais redondos. E gosto deles. A fertilidade é uma dádiva muito doce e gulosa.

1.12.11

Sobrinhos

Qual foto para a moldura do Tiaguinho?

Esta está mais "cool", e estao todos banitos.

Aqui com noiva, mas sem pés. Com noivo nao tenho nenhuma onde estejam todos.


Quem tem mais alternativas?

28.11.11

Alemanhas

Na Alemanha de Leste há espaços no meio das cidades em que a erva ainda pode crescer. Entre prédios e canais, espacos onde caberiam quarteiroes inteiros sao deixados em paz, rodeados de arame e deixados em paz. É possível passear sozinho no parque, ao longo do canal, por ruas intermináveis. E há prédios e casas onde vive gente que se aquece com carvao, e que tem que sair do apartamento para ir à retrete. Há casas sem telhado, prédios inteiros fechados, tapumados e grafitados. E antigas fábricas vazias onde artistas sao tolerados. Fábricas de tijolo encarnado, porta aberta, entra-se por ali adentro, corredores e corredores vazios, e janelas altas com vista sobre a cidade. E silêncio. Ninguém ali.

A perfeicao aparente cansa. Há dias em que nao a vejo, outros em que a sinto sofucante. Os prédios perfeitamente recuperados de acordo com regras energéticas, a relva sempre aparada, as árvores sempre podadas, os carros todos novos, o chao imaculado, tudo no seu lugar e uma cerca à volta. E tanta gente a viver junta, nao se pode dar um passeio sem encontrar gente que passeia com roupa de passeio porque essa é a roupa correcta para passear. E as urbanizacoes modernas, casas em fila, todas com a relva aparada, um trampolim e uma cabaninha de jardim. A ver quem tem o jardim mais estéril. E os ciclistas também com a roupa correcta e o capacete que me abordam se vou no outro lado da estrada, ou em cima do passeio, ou sem luz, ou se alguma outra coisa na sua opiniao foge à regra. E os que comentam o facto de se atravessar a estrada quando o sinal dos peoes está vermelho, o típico "que lindo exemplo está a dar aos meus filhos". Esta mania irresistível do controlo cívico. E eu a pensar, coitadinhas das criancas, em casa só têm bons exemplos, os maus é como se nao existissem.

Na Alemanha de Leste, nos chamados Novos Estados, há duas coisas reconfortantes: o espaço e a decadência.

6.8.11

sábado de sol

Sábado de sol, dia de concerto, a Jojo faz trinta anos. Contrato para os próximos dois anos. Pequeno almoco a ouvir um concerto genial da Amy Whinehouse na antena 3. A vida sorri.

Procuro o meu espaco, as minhas referências e o meu estilo no trabalho. As referências vou buscá-las a sítios muito diferentes... uns muito antigos, nunca me esqueco de quem sou, acho que isso ajuda muito a relativizar para manter a dignidade. Mas sou plástica, já percebi isso, o que é uma grande vantagem muitas vezes. Ajuda a meter-me no lugar do outro, a perceber o que ele quer de mim. Por vezes tenho que voltar a mim, para nao correr o perigo de me esquecer do que eu quero de mim. Apesar das muitas horas de trabalho, dá um gozo enorme.

26.5.11

Delírio

Sonhei que andávamos vestidos de noivos numa feira da ladra.

:-)

Nos últimos dias, várias vezes esta conversa, vinda ora de um ora de outro:
"Estás nervoso?"
"Por acaso nao. Estou feliz."
"Também eu."

Caça ao brinde

Tenho um colega que é louco por brindes. Disse-me para levar a certidao de casamento para a lua de mel, que dá descontos, flores à borla, upgrade do quarto de hotel...
Há quem se lembre de cada uma.

10.3.11

A cor inacreditável desta nascente


E a temperatura uns graus abaixo do Agroal:
Photos Martin Brorder.

Mosteiro de Rila

Chegámos a meio da tarde, com muitos outros turistas. Dentro do mosteiro, uma agitacao. Muita gente no páteo, peregrinos e turistas. Crianças vestidas de anjinhos. As búlgaras outra vez impiedosas dos seus saltos altos, apesar das subidas e da calçada. Dentro da igreja, forma-se uma fila de gente que faz a volta de todos os ícones. Em frente a cada um, tocam-lhe antes de se benzerem. Faço a mesma volta. Demoro tempo a mais em frente a um dos ícones, o monge que está a vigiar manda-me avançar. Ao cair da tarde, desaparece quase toda a gente, esperamos com algumas outras pessoas a nossa vez no escritorio do monge que organiza as dormidas para peregrinos. O monge instrui-nos sobre qual a quantia que devemos doar ao mosteiro; oficialmente nao sao autorizados a cobrar dinheiro por dormidas. Calha-nos um quarto dos antigos, lindo com tectos pintados.

O sol põe-se entre as montanhas ainda com neve e um ar frio desce e refresca-nos do calor do dia. Mas nada mexe. Nada se ouve. So silêncio. E contemplação. Sentamo-nos quase sem falar nos degraus de madeira que dão acesso ao nosso quarto, numa varanda do segundo andar. E aí jantamos os dois o pao, a lata de sardinhas e o vinho que trouxémos.


Fotos Martin Brorder.

5.3.11

"Uma imensa cancao do despeito"

Excertos de um artigo na Visao (10-Fev-2011) sobre a peca de teatro com o mesmo nome, da Catala Angélica Liddell, que nao vi, infelizmente.

"As palavras estao escritas numa folha a4 e a menina lê-as com a entoacao hesitante de quem aprendeu recentemente a juntar as letras. «Nao ha montanha, nem selva, nem deserto, que nos livre do mal que os outros preparam para nós.» A voz é inocente, as palavras brutais. Dobra o papel e atravessa o palco num aviaozinho cor-de-rosa, com rodas, ao som da cancao mexicana El Corrido de Chihuahua. Está declarado o tom do espectaculo que se segue, La Casa de la Fuerza. (...) Sao uma especie de profecia aquelas palavras, um aviso de que nao é possivel estar tranquilo. A partir dali nao havera mais lugar para o cor-de-rosa, para a inocencia, ou para as cantigas singelas. Durante as cinco horas seguidas, a sala será inundada de dor. Uma dor infinita e insuportavel, vivida por Lidell no fim de uma relacao amorosa, vivida pelas outras actrizes em palco, vivida por todas as mulheres da cidade de Juarez, vivida - afinal- por todas as mulheres do mundo."

mais adiante, Liddell: "Tenho uma inclinacao, nao sei se genética, se por educacao, para que todo o mal me salte a vista. E funciono por indignacao, falo do que me indigna e normalmente sao coisas horriveis. A indignacao permite-me pensar, o odio, o rancor, os ressentimentos permitem-me pensar. Nao pertencemos ao mundo dos santos e, as vezes, precisamos de falar com a voz mais obscura, Para enfrentar os outros que a silenciam. A sociedade funciona por hipocrisia, por pactos sociais em que ocultamos a nossa pior parte. Ao trabalhar com os meus piores sentimentos, falo dos maus sentimentos dos outros. (...) para mim teatro é uma forma de sobrevivência. Faco-o para nao me dar um tiro. Se nao fosse o teatro e a possibilidade de expressar os meus sentimentos de todas as maneiras possiveis, creio que nao estaria viva. Sinceramente. Nao poderia suporta-lo. Nao me cura, nao sana a incapacidade de enfrentar o mundo, mas permite-me suportá-lo. Para mim a vida é uma sobrevivencia continua."

E agora a parte mais bonita, Liddell: "A beleza é uma forma de justica, quando ja nao existe justica possivel, é uma forma de alívio, quando já nada no mundo te alivia."

Isto é um grito contra a sociedade happy-go-lucky, porque o feio, o mau, o desespero, o medo, a dor, os "maus sentimentos" como Liddell lhes chama, fazem parte da vida. E aceitá-los é libertador. É uma forma de respeito.

E pensando no que me ajuda a mim a suportar. Sao as pessoas que amo e o sentimento de estar em casa quando estou com essas pessoas. E ocasionalmente uma ou outra pequena surpresa que me faz pensar que tudo o que doeu até aquele momento valeu a pena para poder viver aquilo. Esses sao momentos de reconciliacao.

25.2.11

Back to the Future

espectacular

via Caderno Vermelho.

4.2.11

Hoje precisava de post its, agrafos e pastas e fui ao senhor que nos distribui material de escritório. Nao sei como o senhor se chama. Só sei que se senta numa salinha ao fundo do corredor, onde guarda um armário cheio de tralhinhas. Vamos lá, escolhemos o que queremos e preenchemos tudo num formulário: o nosso nome, o que levamos e o código do nosso departamento para as contas.

Depois de ter levado o meu tempo a escolher bem as cores de post its que queria, levantei os olhos do formulário quando o senhor me disse com um tom de voz que infelizmente conheco que a mulher estava doente. É aquele tom de voz que se usa quando nao é nem constipacao, nem alergia, nem mesmo uma perna partida. É aquele tom de voz que se usa quando até de dizer o nome da doenca se tem medo. E ele nao o disse, só me disse a primeira letra. Eu nunca tinha falado com o senhor. Ele estava desorientado. Que já pensava que estivesse curado, já nao era a primeira vez. Mas agora tinham-no descoberto noutros sítios.

E eu a dizer para esperarmos o melhor. Eu a dizer que ía correr tudo bem. Mas a pensar que nao ía. Eu a saber que nao ía. Que provavelmente nao. E depois desta conversa, o absurdo de ter que escrever no formulário quantos post its levava.