8.3.10

7.3.10

Banho

Um bom punhado de sal na água. Só. Ponho-me de molho, estico-me com os pés de fora e fecho os olhos. O sol entra pela janela e bate-me na cara. O corpo quente. Formam-se bolhinhas de ar que se prendem à pele e aos pelos. Desprendem-se quando lhes toco e sobem até à superfície. Muitas bolhinhas. Tanto sol. As bolhas que se desprendem nas costas vêm a fazer coceguinhas na pele por aí acima até conseguirem soltar-se. Concentro-me nas bolhinhas, tento sentir se há mais bolhinhas nas costas. A cabeca dentro de água, nao se ouve nada. Só o sol, nem consigo abrir os olhos.
A televisao só mostra os dois tercos de baixo da imagem. Ou seja, nunca vejo as caras dos actores. É como estar numa sala de gigantes e ser anao.

Desisti de ver filmes. E até tinha comprado um leitor de DVDs novo, a 3 meses de me ir embora, porque nao posso viver sem filmes.

Ele acha muito interessante o efeito de faltar o terco de cima da imagem. Artístico, quase.

Uwe Lausen

1941-1970

Das alltägliche Leben ist die einzige Möglichkeit für die zukünftige Kunst. Wir müssen nach radikalen Freunden suchen - solche gibt es ja. Die Alten sagen: 'In unserer Jugend waren wir radikal' Das stimmt. In ihrer Jugend lebten sie noch. Man hat dann vergessen, was man wollte. Man schläft. Man ist tot. Wir müssen diejenigen aufrufen, die wach sind, die Schläfrigen aus dem Schlaf rütteln und die Toten begraben. Das heisst: wir müssen anfangen.

"A vida de todos os dias é a única possibilidade para a arte do futuro. Temos de procurar amigos radicais - eles existem. Os velhos dizem: "Na nossa juventude éramos radicais" É verdade. Na juventude eles ainda viviam. Depois, esquece-se o que se queria. Dorme-se. Está-se morto. Temos de chamar aqueles que estao acordados, sacudir os adormecidos e enterrar os mortos. Quer dizer: temos de comecar."

Uwe Lausen, a descoberta de ontem no Schirn em Frankfurt. Influenciado pela pop art, mas autodidacta e fresco. Completamente lúcido e muito sensível. Quadros fortes, arrogantes, críticos. Fazia sessoes transe de música experimental com um músico amigo, com tambores, instrumentos improvisados e voz. Drogas e duas filhas. Suicidou-se em 1970 com 29 anos. Tinha dito "Definitivo. Quem quer definitivo, quer a morte. Quem quer definitivo, deve matar-se." Coerente até ao fim.

16.2.10

De repente

uma vontade de almocar rissóis com arroz de cenoura na varanda das freirinhas.

"A tua senhoria teve que se aguentar à bomboca"

by Mister Morte Negra.

12.2.10

dedicado à mana Joana




Schlag sie tot

Georg Kreisler

Prometo uma traducao completa para breve. Em geral, a ideia é: se as criancas, os vizinhos, os colegas, os anarquistas, os comunistas, os democratas, os judeus, os curdos, os brancos, os pretos te chateiam,
mata-os
limpa-os
e pronto.


Wenn dich kleine Kinder stören, schlag sie tot,
auch wenn sie dir selbst gehören, schlag sie tot,
triffst du einen Judenbengel, spiele seinen Todesengel,
schlag ihn einfach mausetot.

Siehst du eine Negerfratze, schlag sie tot,
stört dich deines Nachbarn Glatze, schlag ihn tot,
du mußt dich vor niemand schämen, mußt dir nichts zu Herzen nehmen,
schlag sie einfach mausetot.

Türken, Kurden, Libanesen und auch Weiße,
unbrauchbare Lebewesen sind halt scheiße,
Kommunisten, Anarchisten und so weiter,
mach dir nicht das Leben schwer.
Rechtsanwälte, Angestellte, Friedenstauben,
alle, die noch immer an das Gute glauben,
in den Müll, in den Dreck,
putz sie einfach weg.

Hat ein Bürger Beinprothesen, schlag ihn tot,
will ein Bürger Bücher lesen, schlag ihn tot,
Arbeitsscheue oder Streuner und vergiß nicht die Zigeuner,
schlag sie einfach mausetot.

Komm mir nicht mit Demokraten, köpf sie, kill sie,
das sind Todeskandidaten, niemand will sie,
Vater, Mutter, Schwester, Brüder, alte Freunde,
brauchst du die für irgendwas?
Pfarrer, Lehrer, Besserwisser, strangulier sie,
all die blöden Tintenpisser, massakrier sie,
merk dir eins: du bist stark,
aller Rest ist Quark.

Laß uns wieder Kriege führen, schlag sie tot,
ganze Völker dezimieren, schlag sie tot,
erst wenn sie im Grab verschwinden, wirst du dran Gefallen finden,
also schlag sie mausetot.

Mausetot frißt kein Brot,
pack sie und schlag sie tot.

Reflexoes de sexta à tarde

É libertador nao saber tudo nem ter o mundo sob controlo. É libertador saber que venha o que vier. É libertador perguntar (ou perguntarem-me) porquê, quando numa dessas discussoes pseudo-filosóficas se atira para a mesa uma premissa cuja validade se tem como indiscutível. Cuja validade se tinha como indiscutível. E sim, os dogmas sao tao confortáveis e quem nao gosta de estar no quentinho. E estamos lá a maior parte do tempo. Mas quando se decide ir à aventura para fora deles é a descoberta de um mundo novo. Um autêntico Mundo Novo. Eu nao sei, sei que basta pôr um pézinho de fora. A sensacao é arrebatadora. Nao me estou a gabar. Estou deslumbrada. Devia envergonhar-me deste deslumbre tao infantil. Estou a relatar que tenho esta sensacao: pus o meu pézinho de fora e acho que tive um vislumbre desse mundo cheio de cores e sons e sabores.

E nao é nada nada difícil, basta nao ter medo. E nao querer saber tudo ou ter tudo sob controlo. É que, venha o que vier...

The importance of stupidity in scientific research

A campanha Be Stupid da Diesel:

9.2.10

Coco avant Chanel



Coco, a elegância sublime e inovadora da simplicidade. Audrey Tautou perfeita no papel, os olhos muito pretos na pele branca, a força aliada à fragilidade, a relaçao de amor sem paixao com Balsan, paternalista e ternurento, e a paixao por Boy. Completamente original e de filosofia feminista, Coco moldou a figura moderna da mulher nos anos vinte, cabelos e vestidos curtos, linhas rectas, tecidos fluídos, boémia e independência. O filme é a nao perder. E ouvi dizer que há uma série francesa também muito boa.

7.2.10

"Only shit sold here"

martin brorder aka moped-könig, fotógrafo de rua.

2.2.10

Comeco a achar

que as palavras aparentemente sem sentido que se têm que copiar para comentar em alguns blogs
sao mensagens do além.

28.1.10

Amor de Perdicao

Eles manipulam-me, tenho a certeza. Amam-se e zangam-se e querem-se num momento agarrados no próximo longe um do outro. Em páginas separadas, se possível. Nao se querem ver mencionados na mesma frase. Têm ataques de ciúmes desta ou daquela... Já viste as figuras que faz... Fazem das tripas coracao para conquistar esta ou aquela hipótese. Ao ponto de só mostrarem o seu melhor ângulo. A um segundo olhar já nada do que me tinham dito bate certo. Malditos. Prendem-se de amores por uma conclusao. E, num arrufo, mostram-se vingativos no seu perfil mais maldoso, mais estéril, mais ridículo.

Amanha vou ter uma conversa muito séria com os meus resultados. Preciso de explicar-lhes que nao estou a escrever uma novela.

23.1.10

Piropos

que a minha ruga entre as duas sobrancelhas dá personalidade à expressao. Chamemos-lhe ruga séria. Mas que o melhor sao as rugas no canto dos olhos, porque sao rugas de rir. Rugas alegres. E que enquanto as rugas alegres forem mais importantes que a ruga séria, tudo bem.

No Staatstheater

Depois de passarmos o vestíbulo minimalista e clean, atravessámos a porta dos bastidores. Gente a andar de um lado para o outro, cada porta um submundo. Seguimo-la por corredores intermináveis e labirínticos. Ela andava depressa, eu queria ver o que havia atrás das portas. Queria espreitar para a sala onde vi roupa pendurada em cabides. Ela apercebeu-se da curiosidade e disse com indiferenca que salas dessas havia muitas ali. Num dos corredores, vimos instrumentos musicais, tambores e xilofones gigantes. Era a sala de ensaios da orquestra. E nós andávamos depressa demais.

No quarto andar fica a Damenschneiderei*, onde trabalham quase vinte modistas. Uma sala sobre o comprido, com mesas em fila junto dos janeloes e vista sobre a cidade. A parede é forrada de caixas em prateleiras com botoes, fechos, fitas, galoes e catálogos com amostras de tecido. Em cada caixa uma etiqueta escrita à mao em letra desenhada. Um par de trabalhos por acabar enrolados em manequins pretos de veludo. Máquinas de costura. Posters de mulheres na parede. A Marilyn Monroe de vestido branco a voar em Nova Iorque. Estamos sozinhas ali, é tarde e as costureiras já foram para casa. Lá fora está escuro, nao se ouve um som, estamos sozinhas no mundo. A melhor maneira de tomar decisoes. A costureira tem ar de menina, nao lhe consigo dizer a idade. Talvez quarenta. Muito calma, pequenina, elegante. Usa uma saia escura rodada e botinhas pelo tornozelo. Mostra-nos sedas, organzas e rendas. Rendas tao finas e suaves. Etéreas. Deixa-nos tempo para mexermos nas amostras. Fala pouco. Mede a altura da noiva. Para um vestido sao três vezes a altura. Ela nao sabe desenhar, gesticula as ideias num manequim de veludo preto. As mangas, que podem ser cortadas um pouco para dentro das costas, o bolero em seda a terminar pela altura da fita do vestido.

Imagino-me a trabalhar numa sala com janelas grandes e sem computadores. Conhecer o conteúdo das caixas na parede, os tecidos pelo toque e como se faz uma saia mais rodada atrás que à frente. Mover-me aqui como em casa. Pelos corredores labirínticos sem fim. Imagino-me a fazer um trabalho manual assim, do qual se vê o resultado. E o resultado é beleza.

*Oficina de modistas

15.1.10

Cor de sangue

Para mim, a melhor fotografia de sempre do Alfaiate. O texto, de peito aberto e a sangue frio. Um bocado formatado ele, meio envergonhado de ser criativo, credo que ainda me chamam apaneleirado (que palavra feia). Mas gosto muito do blog, das fotografias e das suas estórias. Além disso, e como diz a Laura, being hot excuses a lot of things.

6.1.10

Zeitgeist escrito numa estacao de comboios

Já nao me lembrava de como os invernos sao cinzentos em Portugal. Vamos embora e alimentamo-nos de imagens destiladas de um país quente, solarengo, charmoso, de esplanadas e copos de cerveja a refractar raios de sol. É assim ser emigrante. Estou cá mais dias que uns poucos e percebo porque saí e percebo que hei-de viver sempre com vontade de voltar e de ir-me embora. É longe, é pequeno, é claustrofóbico, todos se conhecem, todos tentam logo encontrar um conhecido em comum, que canseira, que promiscuidade, e que falta de liberdade. Estou a exagerar, claro. Os meus estao cá, sinto-me em casa, uma casa de mulheres como num Almodovar. Tao vivo, talvez menos dramático. Há a lareira de Monchite e a excitacao de estarmos juntos. Sabemos que todos os momentos sao preciosos. É por isso que gritamos, nao conseguimos conter a excitacao e gritamos. Há os grandes amigos que me salvam, as estórias mirambolantes ouvidas pela noite dentro, e cantar o Chico na autoestrada, esquecer do tempo, Zeitgeist escrito numa estacao de comboios, quem fez aquilo. E sentir em casa, e a roda de choro, "a gente está é pegando o jeito um do outro", descobrir quem fui (sou) numa caixa de vime, pôr o colar que o pai me deu e a mae nem tinha gostado e por isso eu também nao tinha gostado. É de ouro, com contas laranja, agora já gosto. Gosto muito. Ali à frente sempre muita roupa estendida, roupa feia, calcas de pijama, toalhas turcas com desenhos grandes. Quando chove, poe-lhes um plástico por cima e pronto. Tanta roupa em casas pequenas, será que lavam para fora. A cigana debruca-se na varanda a fumar, mexe na roupa a ver se está seca. Debruca-se com as mamas de fora da varanda. Camisola de lä parda, decote junto ao pescoco, cabelos muito compridos apanhados. E volta para dentro.

18.12.09

blog'o de notas

afinal a música experimental existe.
quero muito explorar por aqui:

Memórias

Sem dúvida que uma das memórias de Monchite é sonora. E é ligada a um momento do dia de que gosto muito, a manha. Gosto da luz da manha e gosto da sensacao de ter um dia inteiro pela frente. Quando em Monchite, de manha, se abriam as janelas, e imaginemos que era a janela do quarto onde dormia o avô Joao, entravam nao só a luz mas também os sons dos tractores de caixa aberta que desciam para a baixa. A janela do quarto do avô Joao dá para um vale apertado - onde no inverno corre uma ribeira onde se apanham sapos e, diz a lenda, cágados. O que interessa é que esse vale pega nos sons da baixa, concentra-os e envia-os directamente para a janela do avô. E eu estou lá, mao em concha na orelha, nariz frio, a apanhá-los a todos, antes de me chamarem para ir para a escola em Tomar.

O avô Joao dormia no segundo melhor quarto da casa, a seguir ao dos pais, e abria a janela TODAS as manhas, quer fosse Verao ou Inverno. Quando o avô se deitava, a mae sentava-se na beira da sua cama e ali tinham conversas que me pareciam ser meio em surdina e durar horas. Nos dias em que o avô lá estava, em vez de tomarmos o pequeno almoco a correr, sentavamo-nos à mesa que já tinha sido posta pelo avô antes de descermos. E nas noites de Verao, a seguir ao jantar, eu dava passeios com o avô, de chapéu e bengala, até à capela e, nesses passeios, o avô ensinava-me a apanhar grilos dos seus buracos com uma palha e muita paciência.

Tao bom que é lembrar.

(ao andré, obrigada pela dica)

A sonhar acordada

com o fim do doutoramento.
Masallah.

13.12.09

Oetinger Villa

No mesmo sítio onde há encontros anti-fascista, concertos punk, cristas cor-de-rosa, meias rasgadas com mini-saias de couro ou calcas pretas esterlicadas e botas de biqueira de aco, fans a despirem-se no palco e cadeiras partidas há também festas espanholas. Copos de plástico com sangria acucarada a um euro, touros estampados em t-shirts vermelhas, flores no cabelo de miúdas com vestidos sexy, patilhas e fios de prata ao pescoco, gipsy kings e paquito chocolatero. Ecletismo. Os concertos punk levam uma malta muito local, sao bandas da zona e os fans sao fiéis e ferrenhos. Em geral, a Oetinger Villa tem uma gente politizada e engaged. Tem estatuto de centro cultural, um centro cultural underground, um palácio antigo e decadente com ar de casa assombrada. Entra-se para um hall de pé direito tao alto como a própria casa, que se desenvolve em volta desse hall em escadas e varandas de madeira muito escura. Há uma lareira gigante no hall, e as paredes estao grafittadas ou coladas com posters por cima de posters dos diferentes eventos. Na festa espanhola, uma cena paralela habita a villa. Sao estudantes de erasmus ou malta da agência espacial europeia, espanhois e outros latinos, cosmopolitas, despreocupados, uma festa espanhola aqui como em Roma, Londres ou Barrancos. Os locais que se apresentam sao namorados ou namorados wanna-be de espanhóis de cabelo escuro, camisa aberta e pelo no peito ou de espanholas de flor no cabelo e maos sevilhanas.

Gosto deste ecletismo, gostei do concerto punk e da festa espanhola, mas mais ainda gostei de ir às duas neste sítio. Além disso, para dancar o paquito chocolatero estou sempre pronta.

10.12.09

Namesake

Outra vez um processo de crescimento. Gogol em busca da sua identidade, no meio do passado intrincado entre a cultura indiana bengali e a vida nos estados unidos. Nova Iorque e Calcutá numa só. A primeira viagem à Índia na adolescência, a decisao de estudar arquitectura tomada numa visita ao Taj Mahal. A dor do tempo perdido, a esperanca na descoberta de quem se é, a sensacao de liberdade. Avioes, malas, comboios, viagens, saudades. Sempre saudades. O filme mais bonito dos últimos tempos: tanto a fotografia - as cores, os contrastes, a simplicidade - como a história e as personagens.

La Faute à Fidel

“Les communistes ? c’est des gens rouges et barbus qui ne craignent pas le seigneur et qui déménagent tout le temps“

A politizacao e "esquerdizacao" dos seus pais, vistas através dos olhos de uma menina de 9 anos da classe alta, na Franca pós 68. Ela resiste, revolta-se, questiona, apercebe-se das incoerências, exige explicacoes e respostas, vive de uma forma muito intensa a mudanca de vida, de casa, de hábitos, de valores. O filme mostra de uma maneira muito simples e cómica a evolucao social a partir do Maio de 68.

Mais aqui.

30.11.09

Ora bem, quanto aos minaretes

A relacao entre um imigrante e o país onde vive e trabalha nao é uma relacao anfitriao-convidado; a ideia dos Gastarbeiters mostrou-se um falhanco. Os imigrantes nao têm que ser "tolerados", contribuem isso sim de forma importante para a economia (e também para a cultura!) dos países onde produzem, pagam impostos e enriquecem a paisagem social.

O que se espera de um país resolvido e liberal é que respeite diferentes maneiras de viver e dê aos seus diferentes grupos espacos para viverem as respectivas culturas.

(comentário a este post)

Blogs

Adoro o gozo que tem em usar coisas estranhas, a soberanidade com que fala dos grandes da moda e acima de tudo o seu ar deslavado e maladroit. Abaixo as belezas formatadas!

Descobri este barco à deriva e gosto de pensar que é uma declaracao de amor.

27.11.09

Lazy Luders



Amanha concerto na Oetinger Villa, um sítio já de si um must-see do underground.

Melhor melhor é que a cantora vem cantar connosco de vez em quando.

Vejam o site da banda.

23.11.09

O que é democracia e ditadura - pergunta Inês de Medeiros às entrevistadas.

"Este documentário é uma suave, afectiva, comovente mas exacta resposta. Devia passar em todas as escolas do país. E ser enviado, por correio, para casa de todos os que esqueceram ou insistem em esquecer a diferença."

"se todas tivéssemos que dizer não, era não. Mas também não sabíamos bem a quê."

Reaccoes ao "Cartas a uma Ditadura" em blogs:

um mergulho perturbador no obscurantismo que dominou Portugal por mais de 50 anos

por entre chavões e frases feitas, surgem por vezes o medo, a tristeza, o isolamento em que se vivia em Portugal nos anos 50

quer participassem de uma forma mais ou menos consciente (porque havia as duas condições), parece ser comum é que o fizeram de uma forma de poderem participar activamente, de alguma maneira e/ou na única possível, na esfera política. "Cartas a uma Ditadura" desmonta o regime e as suas estratégias de perpetuação

Cartas a uma Ditadura

Finalmente a Joana emprestou-mo. A versao inglesa, que quero mostrar aos meus amigos.


Ao início reparei que apareciam só mulheres da classe alta. Claro, o resto das mulheres portuguesas nao existiam. Na verdade, o resto do povo nao existia, nao tinha voz, nao fazia parte da sociedade. Estranho é que este facto, que eu sabia dos livros de história, me surpreenda.

As conversas sao deliciosas, mas é sobretudo nos silêncios que se ouve mais. Nas pausas antes de falarem, enquanto estao a pensar no que hao de dizer. E nas reticências, nas frases inacabadas. As entrevistas estao muito bem feitas, nao perguntam mais, respeitam. Fica no ar sempre uma dúvida sobre o que pensam aquelas mulheres realmente. Fica no ar a dúvida sobre se se admitem pensar...

Depois, Belmira. Recebeu a circular porque estando o marido para o Brasil, era ela quam votava. Admite que queria ter sido alguém, e dou por mim a pensar também nas outras. Quem teriam sido estas mulheres, se nao tivessem tido que ocupar um lugar predefinido num ambiente claustrofóbico?

Parabéns ao Tio Tó MG. E Obrigada.

17.11.09

devagarinho

já saem powerchords e escalas.
Dia de banda é sempre um bom dia.

12.11.09

Viva o sonho e os nossos mundos privados

É em sonhos que o cérebro faz as ligacoes mais inovadoras. Sem respeito a lógicas, regras ou sensatez. Livre.

Um sonho lúcido é um sonho em que sabemos que estamos a sonhar. Se soubermos que estamos a sonhar, podemos dirigir o nosso sonho, fazer qualquer coisa que nos apeteca. Diz quem já conseguiu que é a loucura. Chega-se lá desenvolvendo algumas rotinas que nos permitem estar mais alerta.

A primeira é tomar nota dos sonhos. No início, nao nos lembramos de nada, mas com o tempo vamos conseguindo fixar cada vez mais pormenores. Até nos lembramos de vários sonhos na mesma noite e do seu encadeamento.

A segunda rotina é um reality check para situacoes que sejam estranhas, inesperadas ou impossíveis. Se durante o dia desenvolvermos este reality check, levaremos esta rotina para os sonhos e assim se nos acontecer algo estranho num sonho (como estar num lugar e de repente estar noutro, ou estar a falar com alguém que está longe) percebemos que estamos a sonhar e é aí que se dá o click para o sonho lúcido.

Esoterismos e psicanálises à parte, eu comecei a assentar os sonhos e é mesmo verdade que me lembro de cada vez mais pormenores. O que interessa aqui é darmos valor aos sonhos, para termos as tais sinopses inovadoras, para mantermos o cérebro a funcionar. A pergunta é: o que faz o meu cérebro se eu o desligar de regras e pressoes sociais, de angústias existenciais, de lógicas geográficas e do possível/impossível? A resposta é: fica livre! Qual é a ideia dos sonhos lúcidos? Simplesmente pela aventura de os viver, como ir de férias. Ou porque, entre outras coisas, podem ajudar a resolver problemas, quando pensamos neles de maneira mais livre e vemos possibilidades que nao tínhamos visto e ainda por cima temos a hipótese de as experimentar.

11.11.09

Aspirantes a guitarristas, nao se esquecam disto:

Um amplificador com distorcao e qualquer uma é rainha.
Basta umas festinhas em duas cordas, que o amplificador vai à lua e volta.

Ponto da situacao

Ontem estive a ensaiar e deitei-me tarde. Dormi mal porque tive que acordar às 6. Estive 12h no laboratório e estou morta.

Mas há duas coisas que precisam da minha atencao hoje à noite.

Primeiro, chegou-me aos ouvidos que o chefao me elogiou e diabos me levem se nao vou festejar.

Segundo, há um concerto de Goldenen Zitronen. Elas dizem que sao o nosso exemplo de banda. Nao os conheco, vi um filme no youtube e achei-os um bocado nonsense. Mas tudo bem, se é exemplo é exemplo!

Vou a casa dormir uma hora e ala!

7.11.09

verniz cor de rato



As fotografias nao é má qualidade, nao. Sao fotografias artísticas! Nem tentem obter estes efeitos com uma máquina normal. O meu telemóvel dá um toque artístico especial. O génio, esse é todo meu... E nao, nao é mau génio. É génio artístico! Fogo, que tenho que explicar tudo!

Quem muito (e bem!) escreve, merece recompensa. A compra do ano.

a cantarolar

dança marioneta,
rodopia, gira
e recomeça

Suite

A música cola tao bem com o tema! Faz-me pensar em filmes de Tim Burton.

6.11.09

Amazing cells

Tamanhos: do grao de café ao átomo de carbono. Pelo meio, os meus anticorpos.

A comunicacao celular é feita por sinais. É preciso entender esses sinais para poder encontrar respostas terapêuticas quando os sinais correm mal.

A dica foi da Mini.

Sertao

Anteontem saí daqui e vi uma daquelas luas cheias, muito baixas e gigantes, a maior que já tinha visto. Lembrei-me logo das luas das novelas, impossivelmente grandes a torturar o mulherio daquelas vilazinhas de cenário artificial, e dos lobisomens. Nao acredito que aqui haja lobisomens. Para isso, é frio demais. E nao estou só a falar da temperatura ambiente.

29.10.09

Síntese da felicidade

Desejo a você...
Fruto do mato
Cheiro de jardim
Namoro no portão
Domingo sem chuva
Segunda sem mau humor
Sábado com seu amor
Filme do Carlitos
Chope com amigos
Crônica de Rubem Braga
Viver sem inimigos
Filme antigo na TV
Ter uma pessoa especial
E que ela goste de você
Música de Tom com letra de Chico
Frango caipira em pensão do interior
Ouvir uma palavra amável
Ter uma surpresa agradável
Ver a Banda passar
Noite de lua Cheia
Rever uma velha amizade
Ter fé em Deus
Não Ter que ouvir a palavra não
Nem nunca, nem jamais e adeus.
Rir como criança
Ouvir canto de passarinho
Sarar de resfriado
Escrever um poema de Amor
Que nunca será rasgado
Formar um par ideal
Tomar banho de cachoeira
Pegar um bronzeado legal
Aprender um nova canção
Esperar alguém na estação
Queijo com goiabada
Pôr-do-Sol na roça
Uma festa
Um violão
Uma seresta
Recordar um amor antigo
Ter um ombro sempre amigo
Bater palmas de alegria
Uma tarde amena
Calçar um velho chinelo
Sentar numa velha poltrona
Tocar violão para alguém
Ouvir a chuva no telhado
Vinho branco
Bolero de Ravel
E o carinho meu.

de Carlos Drummond de Andrade, descoberto aqui.

Acrescento:

Cama quente no Inverno
Cheiro de maca no forno
Luz de vela
Copo de vinho
Manha de sábado
Aeroporto
Reencontros
Encontros
Céus ao entardecer
Confidências e comunhao
Admirar um amigo
Deixar-se ir
O primeiro beijo
Banana com queijo
O copo meio cheio
Canja de galinha
Memórias de vida

28.10.09

banda

Elas comecaram há um ano do zero. Agora sao uma baterista, uma baixista e uma nas teclas. Encontram-se uma vez por semana na garagem. Um dia, peguei numa flauta e toquei com elas. Só improvisacao. Adorei. Mas precisavam era de uma guitarrista. Peguei na guitarra e comecei só a imitar o baixo. Só com a corda de cima. Pouco, pobre, mas já gozava. Desenterrei do fundo da memória as aulas de guitarra em Tomar. As Dunas e o Anzol. As notas aqui nao sao Dó - Si, mas C D E F G A H. Preciso de comunicar em duas línguas estrangeiras ao mesmo tempo, o alemao e as notas alemas. Lixado. Com uns 5 ou 6 acordes nao se muda o mundo, mas ninguém está ali para isso. É um gozo enorme. E há alturas em que entramos na onda, todas na mesma. E aí tocamos todas juntas. E aí, xii, aí é um gozo indiscritível.

chocalhar o rabo

as aulas de danca agora sao numa escola de música. Gente para a frente e para trás com instrumentos às costas. Ouvem-se as aulas, atrás de cada porta. Gosto tanto do ambiente.

22.10.09

ITHACA

Sexta-feira passada estava em casa da Laura, ela tinha ido trabalhar. Peguei no livro "Molecules that changed the world" para me fazer companhia ao pequeno-almoco. Gosto de ler ao pequeno almoco. Na última página descobri o poema Ithaca (traducao inglesa do grego). Nao sei quantas vezes já o reli desde sexta feira. Ter sempre presente que a riqueza vem do caminho que fazemos para atingir objectivos, e nao dos objectivos em si , é o que nos salva.

ITHACA

When you start on your journey to Ithaca,
then pray that the road is long,
full of adventure, full of knowledge.
Do not fear the Lestrygonians
and the Cyclopes and the angry Poseidon.
You will never meet such as these on your path,
if your thoughts remain lofty,
if a fineemotion touches your body and your spirit.
You will never meet the Lestrygonians,
the Cyclopes and the fierce Poseidon,
if you do not carry them within your soul,
if your soul does not raise them up before you.

Then pray that the road is long.
That the summer mornings are many,
that you will enter ports seen for the first time
with such pleasure, with such joy!
Stop at Phoenician markets,
and purchase fine merchandise,
mother-of-pearl and corals, amber and ebony,
and pleasurable perfumes as you can;
visit hosts of Egyptian cities,
to learn and learn from those who have knowledge.

Always keep Ithaca fixed in your mind.
To arrive there is your ultimate goal.
But do not hurry the voyage at all.
It is better to let it last for long years;
and even to anchor at the isle when you are old,
rich with all that you have gained all the way,
not expecting that Ithaca will offer you riches.

Ithaca has given you the beautiful voyage.
Without her you would have never taken the road.
But she has nothing more to give you.

And if you find her poor, Ithaca has not defrauded you.
With the great wisdom you have gained, with so much experience,
you must surely have understood what Ithacas mean.

Konstandinos Kavafis, 1911

20.10.09

EN2

Joao Catarino conta e desenha a EN2, vista de uma carrinha pao-de-forma VW. Adoro!
Mais uma dica do Tiago, publicada mais-vale-tarde-que-nunca.

Vejam os vídeos:
Prólogo

Clube de Vídeo

O filme é da seccao "vale a pena ver" do meu clube de vídeo.

O meu clube de vídeo tem seccoes como "filmes especiais" (Gato Preto, Gato Branco), "filmes a 50centimos", "escolhas pessoais dos trabalhadores", "filmes de oscars" e "cinema alemao". Já encontrei no meu clube de vídeo grandes surpresas, uns que escolhi só pela capa e que adorei (Irina Palm), outros que se tornaram nos meus filmes favoritos (Fur) e outros de que andava à procura mas nunca pensei que os apanhasse por nao serem mainstream (Happy-go-lucky).

Gosto de pegar na bicicleta ao princípio do serao, de luvas e gorro e cartao no bolso, e pedalar os 2 minutos até lá. Gosto do chao de alcatifa, dos néons à entrada, da rapariga de rastas que está ao balcao a ver um filme com o cao aos pés. Gosto da banca de filmes à venda, onde nunca encontro nada mas procuro sempre. Gosto de olhar para os clássicos que nunca vi e pensar que os guardo para quando nao houver mais nada - nao há pressa, os clássicos sao clássicos. Encontro sempre alguma coisa. E gosto de andar por ali, sem pressas, até haver um filme que tem mesmo que ser visto.

Um bom clube de vídeo é um factor de qualidade de vida tao importante como andar de bicicleta ou viver a 5 minutos do trabalho.

Indecent Proposal

Grande filmalhao estilo eighties, com a Demi Moore. Romanticao, ao estilo o-amor-vence-tudo.

14.10.09

Basel

é cosmopolita, bonita, civilizada, laid back. E rejeitou os posters do partido de extrema direita. Hoje saí mais cedo da conferência e fui passear de gorro, cachecol e luvas, o sol e o frio na cara. Definitivamente, gosto das estacoes do ano.

7.10.09

coragem de viver

Ouvi-a dizer a uma mesa de café que o seu objectivo de vida a longo prazo era a sabedoria, die Weißheit.

Fiquei a pensar naquilo...

E tenho pensado que o meu objectivo de vida a longo prazo é nao ter medo. Assim, dito com voz de manifesto. Porque o medo é o que nos rouba a vida.

Eu ando introspectiva, eu sei. O Outono poe-me assim. Mas é bom, como diz a Maria. E eu digo que é tempo de verificar o azimute e coser as velas. Que vem aí vento!

Isto já foi mais fácil

mas também já foi mais difícil.

Sao dias de assim-assim, do renhónhó. Que também fazem parte da vida.

Mas sao dias em que nao se veleja, ou porque nao há vento, ou porque se anda a apanhar bonés, ou porque nao se tem unhas.